CARTA DE UMA UNIVERSITÁRIA PRETA

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por Grupo de Trabalho Histórico-político
    O Coletivo Meninas Black Power está em muitos lugares, atuando ativamente e ocupando espaços que antes nos eram negados. Antes mesmo da existência do Coletivo, cada integrante já tinha sua caminhada de resistência. Hoje, juntas, conseguimos ver com mais clareza o quanto é pesada essa caminhada sozinha. Hoje nossas histórias individuais nos inspiram a ocupar cada vez mais escolas, a dizer para as crianças excluídas e afetadas diariamente pelo racismo que é por elas que promovemos cada uma de nossas ações. Aprendemos juntas que em grupo somos mais fortes, e sendo espelhos positivos, conseguimos mais gente para o time das que acreditam que só a Educação pode nos salvar da exclusão. A seguir vocês lerão o relato da Lais Reverte, integrante do MBP e conhecedora da batalha diária que é ser mulher, preta, em um universo excludente e racista que até hoje ocupamos à força.


"Olá, me chamo Lais Reverte e venho aqui hoje falar de dor, da minha dor. Tenho 20 anos e, como a maioria dos jovens da minha idade, quis caminhar pelos próprios pés e fazer meu caminho longe de casa. Prestei vestiba para uma Universidade no interior do meu Estado (Espírito Santo), sou fruto de cursinho sustentado pela comunidade (no caso, estudantes que se prontificaram para dar as aulas) e cotista racial, estudei meu Ensino Médio em escola pública federal e, por dificuldade financeira familiar, no meu último ano não pude cursar outro pré vestibular que não fosse o social. Na minha primeira tentativa de ingresso passei em primeiro lugar (provando sim que sou capaz de passar, com cotas ou não, mas fazendo questão de ocupar um lugar que é meu de direito nas Universidades Federais) e cá estou, cursando Geologia desde o mês de Abril. Moro sozinha, por opção, e tenho visto cada vez mais o quão difícil é, no ambiente acadêmico, se manter como se é. Quanto mais o tempo passa, mais eu entendo e vejo a dificuldade de ser uma mulher preta nesse mundo. Aqui me encontro, na Universidade, caloura, numa das (o que deveria ser) melhores fases da minha vida e enfrentando os mesmos problemas de sempre. Agora maiores. Não é NADA fácil ser a ultima opção. Ver todas suas amigas de cabelos longos e corpo esguio fazendo a festa, sendo "as escolhidas e desejadas", e você no canto, sendo "a amiga". Não pensem que é recalque, inveja, ou carência, mas uma realidade que me acompanha desde a infância. Não é nada fácil ser vista como "estilosa" por causa do meu cabelo, que não tem nada demais, apenas nasceu assim. Cada vez que vou para casa da família,sinto o carinho do "não ser diferente" do mundo, mas cada dia que passa fora de lá, menos me sinto incluída. Enquanto em casa vejo o amor de verdade, que vem da preocupação e do cuidado, longe eu vejo a vontade de se dar bem, o interesse. É "barra" me manter como sou fora da minha zona de conforto. Difícil entender que não é qualquer pessoa que aguenta a pressão de ter uma relação com uma mulher preta de verdade, sem nenhuma marca esbranquiçada na história (gracas a Deus, tenho MUITO orgulho do que construí até aqui). Triste procurar carinho onde não tem. Cada vez mais vejo que é necessário bater na tecla: NÓS POR NÓS. E quando não há nós? E quando se é "um"?"

QUEM É A MENINA BLACK POWER?

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por Jaciana Melquiades

     Nathane já é conhecida nossa. Ela tem 14 anos, estuda na escola que atuamos em Tinguá e aos poucos vem construindo sua identidade de mulher preta e crespa. Passou pela transição. Trançou, retrançou, fez o big chop... e trançou de novo os cabelos imediatamente. Mas a vontade de ver seus cabelos livres falou mais alto! Um mês depois do big chop tirou as tranças e ostenta um crespo lindo. O pai deu a ela seu primeiro pente garfo: ele mesmo fez e relembra os tempos em que ele também usava os cabelos Black Power, na década de 1970. Pensamos então que seria bem bacana acompanharmos esse processo de perto. Antes, vamos conhecer um pouquinho mais dela. Temos dois relatos escritos por ela e uma entrevista que fizemos para que ela falasse de assuntos que nos são interessantes! Vamos ver?

Pente Garfo feito pelo pai de Nathane
O COMPLEXO
09 de Dezembro de 2013

     Na escola sempre me colocavam apelidos por causa do meu cabelo ou da minha cor. No começo eu não ligava, mas começou a ser frequente. E eu ficava me perguntando: "por que eu nasci assim?", "por que eu não tenho o cabelo normal, liso ou cacheado?".
     Toda vez que eu olhava para o espelho, me achava feia, achava que as pessoas iam rir de mim. E cada vez que isso acontecia mais eu me frustrava. Dava vontade de passar o dia dormindo. Quando me chamavam para sair, eu não ia, pois achava que não era digna de ser vista pelas pessoas.
     Hoje em dia superei isso, estou aprendendo que não importa o que acham de você, mas sim o conceito que você tem de si mesmo. Mas às vezes esse complexo volta como pesadelo e não dá vontade nem de levantar da cama.

A DECISÃO
15 de Fevereiro de 2014

Big Chop em agosto de 2014
   Quando comecei a pensar em deixar de relaxar o cabelo, fiquei com muitas dúvidas. No meu coração eu sentia que seria bom, mas minha cabeça dizia que eu não ia gostar. Tinha medo do que as pessoas iam falar, mas ao mesmo tempo queria saber como seria minha vida se fizesse isso.
   Tinha dúvidas, mas decidi que vou enfrentar meus medos e que de agora em diante não vou ser influenciada pelas pessoas: eu vou influenciá-las. Estou muito feliz, pois as pessoas que eu amo estão me apoiando nessa nova fase da minha vida. Um dos motivos que me levou a tomar essa decisão foram as pessoas que acreditam em mim e no meu potencial e quero que essas pessoas sintam mais orgulho de mim e não irei decepcioná-las. Quero que a professora Jaciana e as Meninas Black Power saibam que elas estão sendo muito importantes na minha vida, pois estão me ajudando a superar meus medos. Eu agradeço à Deus por ter colocado vocês na minha vida.
Com vocês estou aprendendo mais sobre meus antepassados, estou aprendendo que não é ruim ser diferente. Agora penso que cada vez que eu alisava o cabelo, eu rejeitava meus antepassados, eu rejeitava tudo o que eles sofreram para eu ser livre, para eu ter direitos na sociedade hoje.

     Quando eu falo em deixar o cabelo natural, não falo somente em não alisar os cabelos, mas sim em assumir minha verdadeira forma. Estou pronta para isso. E quando as pessoas virem meu cabelo natural, vão saber que eu não tenho vergonha de ser quem eu sou: negra. Hoje posso bater no peito e dizer que sou descendente de africanos e tenho muito orgulho disso.


Entrevista
Sem as tranças, dia 26/09/2014
Esta entrevista foi feita dia 01 de agosto de 2014, um pouquinho antes do Big Chop.

MBP - Como foi que você percebeu que precisava mudar a forma como lidava com seus cabelos?
Nathane - Sempre alisei mas não tinha satisfação. Um dia faltei aula para ir ao salão alisar o cabelo e soube pelos meus amigos que vocês (Meninas Black Power) tinham ido à escola. Fiquei triste por não ter encontrado vocês mas fiquei curiosa pra saber do que falavam.


MBP - Qual foi a sua sensação quando viu tantas mulheres crespas juntas?
N - Me senti enganada. Sempre ouvi que meu cabelo era feio e vi em vocês que era mentira. Vi que eu não precisava ter vergonha do meu cabelo.

MBP - Como foi conversar com seus pais sobre a transição e a sua vontade de usar os cabelos crespos?
N - Minha mãe aceitou bem, mas meu pai teve muito receio porque eu já fui muito triste por causa do meu cabelo. Eu tinha um "complexo", não queria sair de casa e ele ficou preocupado que esse "complexo" voltasse.

MBP - Como são os comentários que você já começou a ouvir?
N - Meus amigos apoiam, mas os comentários negativos de outras pessoas que nem conheço ainda me deixam triste.

MBP - Você pensa em relaxar o cabelo?
N - Não. De jeito nenhum.

MBP - Quais os desafios você acha que vai enfrentar usando seu cabelo natural?
N - Críticas, preconceitos, vou ter que enfrentar as pessoas que acham que eu tenho que ter cachos. Tenho primas que tem cachos, isso é visto com bons olhos, e as pessoas não conseguem entender que o que eu quero é deixar meu cabelo natural como ele é. Pensam que entrei em transição para relaxar. Acho que preferem não me ouvir. Não quero relaxar, nem cachinhos feitos no salão, quero meu cabelo natural como ele é.

O DIA COM MENINAS BLACK POWER

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por Tainá Almeida

Foto: Márcio Mercante
      Política, beleza, irmandade, amizade, comunidade preta. Acho que essas foram as palavras-chave do dia em que fomos entrevistadas pela Carmen Lúcia, jornalista do jornal O Dia. Uma irmã que conheceu nosso projeto e achou que valia a pena reverberar nossas informações e o nosso evento, o Encrespando. O evento passou e agora, ao termos acesso às fotos, vimos que nossa ação naquele dia não foi só falar do evento e de nossa comunidade preta. Falamos de muitos assuntos que estão intimamente ligados às imagens. Mas as imagens também refletem momentos que não foram falados. 

Foto: Márcio Mercante
     Podemos ver em vários momentos em nosso blog questões tão sérias e importantes que podem confundir nossas leitoras e leitores. Sim, nós falamos de militância preta. Somos mulheres que falam de cabelo e de racismo, compartilhamos nossas dores, mas devemos concordar que trazemos em nosso sorriso a beleza, alegria e entendimento do que é ser mulher preta. E, naquele dia, sentimos na pele o que é ser mulher preta em um ponto turístico. Sobre isto, a Maria Fernanda diz: "Senti que estavam observando até meu útero, mas não sai dali emocionalmente abalada. Assistam o filme "Vénus Noire". Foi assim que olharam." Complementa: "(este filme) Mostra a beleza do exótico, o erotismo do exótico, a curiosidade em estudar o exótico até a morte do exótico. Traduzindo para a atualidade, a beleza da mulata, apropriação do candomblé pelo Pierre Verge, estudo de antropologia..."

Foto: Márcio Mercante
      Nós falamos de militância e estética negra, sempre uma como fio condutor da outra. Em meio a diversos comentários da sociedade sobre o que esperar de uma mulher negra, sempre nos pegamos pensando no tamanho de nossos black e muitas meninas ainda pensam na insatisfação deste tamanho. Falando sobre isso, surgiu essa foto, que é um movimento crescente em nosso Coletivo. Sempre dizemos: "O fator encolhimento não mata, ensina a viver (feliz)!"  O fator encolhimento é o que assola a maioria das meninas com o cabelo com os cachos menores, "do tamanho do diâmetro de uma agulha de crochê", como diz a Bárbara, do blog Blacks Bárbaros. No Coletivo este tipo de cabelo pode ser representado por mim e pela Jaciana. Há muito tempo, definia o toque em meus cabelos com o que eu imaginava ser uma nuvem, depois imaginei que se eu tocasse em uma flor de algodão, o toque seria o mesmo. Não sei, mas não tiro isso da cabeça. Já a Jaciana diz: "Pareciam bolinhas de sagu! Hoje já está bem diferente a sensação. Ele faz muitos cachinhos... Parecem barbantes.... Centenas de cordinhas macias…". Muito se engana que pensa que este encolhimento só se faz presente nos tipos mais crespos. Nos usei como exemplo, pois é característica de nosso cabelo o encolhimento de até, pasmem, 75% do tamanho original do fio. Esperam que nossos fios sejam grandes e ostentemos enormes black powers pelas ruas da cidade, mas nosso crescimento não é visto como o da maioria, e para a gente, tudo bem. Aprendemos a viver com nossas características.

Foto: Márcio Mercante
      Falar de estética preta é também falar que não somos feitos em fôrmas. Quando falamos em um fio crespo natural estamos pensando em sua estrutura e no respeito que temos a essa estrutura. Mais uma vez, usando nosso Coletivo como exemplo, eu , Tainá, que já tive a oportunidade de colocar as mãos nos fios de cada uma da equipe Rio, digo com propriedade: não existem cabelos iguais. Será que todas precisamos perseguir este ideal de cacho? Será que mesmo abandonando os alisantes e relaxantes não conseguiremos abandonar os ‘ideais de cabelo bonito’? Este ainda é um assunto pouco desenvolvido e falado entre nós, crespas. Mas precisamos verbalizar e refletir sobre nossa forma de definir o que é bonito e o que é o respeito à estrutura de nossos fios.

Foto: Márcio Mercante
     Falar de militância preta, moda preta, evento preto, educação preta são nosso objetivo. Ocupar a escadaria do Selarón e não permitir que nos tratássemos como parte do ponto turístico foi um ato de resistência. Agradecemos à Carmén Lúcia pela oportunidade e ao Márcio Mercante pelo incrível trabalho fotográfico. A matéria pode ser lida aqui.

Foto: Márcio Mercante

SEXO E AS NÊGA: A CONEXÃO PERVERSA ENTRE O ESTEREÓTIPO E O RACISMO

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por Fabíola Oliveira

Fonte: Google

      Venho acompanhando o susto que a comunidade preta tomou com o anúncio do lançamento da série "Sexo e as Nêga", de Miguel Falabella (aquele do personagem loiro, alto e nórdico que odeia pobre!). Mais uma vez veremos a televisão desempenhando sua função perversa e abjeta de desqualificar e desprestigiar as manifestações próprias da nossa negritude. Mais uma vez veremos protagonistas pretas sem protagonismo, ainda que a turma do "somos todos macacos" diga que estamos exagerando...
        Mas, antes de pensar sobre a narrativa propriamente dita de "Sexo e as Nêga", me peguei pensando no título da trama. Dentre as tantas perguntas que fiz, a que mais me instiga é: qual a relação que existe entre as palavras "sexo" "nêgas"? Cheguei a alguns pontos:                                         
1. Estupro 
Mulheres pretas eram violentadas por seus carrascos (senhores de escravos), por carrascos convidados (os senhores de engenho quando recebiam outros senhores em sua propriedade, ofereciam suas melhores pretas para servirem sexualmente aos estupradores visitantes) e por capitães do mato (pretos arrendados pela branquitude, com fins de barbarizar os seus pares);

2. Hiperssexualização do corpo preto
O significado do corpo da mulher preta é plenamente relacionado à animalização e à exploração sexual. Expressões como "mulata tipo exportação" flagram o entendimento social sobre o corpo da mulher preta: aquele corpo que é comercializado para satisfazer sexualmente clientes do mundo todo. O próprio termo "mulata" tem relação direta com o animal mula, estéril, que serve apenas para trabalho. A bestialização desse corpo feminino e africano é de uma violência absurda: reduz-se o Primeiro Ventre do Universo à um amontoado de carne que deve ser consumido, sugado em sua energia e dispensado quando quase morto;

3. Extermínio da chance à fragilidade
Comparadas a mulas (animais destinados ao trabalho de carga), mulheres pretas se transformaram em sinônimo de força. Mais uma investida do projeto de bestialização dos nossos corpos e sentimentos. Criou-se o mito de que não somos sensíveis, que o nosso corpo foi forjado pro trabalho pesado, que suportamos mais a dor do que qualquer outra pessoa (branca). Essa animalização é comprovada em estatísticas que denunciam que mulheres pretas, em hospitais públicos, são as que menos recebem anestesia na hora do parto. Mulheres pretas são as que, estatisticamente, mais sofrem com a violência doméstica. E a cultura do estupro segue vitimizando mais mulheres pretas (estupros no perímetro urbano e dentro do ambiente doméstico também, considerando que muitos homens violentam suas companheiras);

4. Saúde emocional em declínio
A quem pense que mulheres pretas sejam a mais fiel definição da volúpia e espontaneidade sexual. Mas não! Somos o retrato da solidão. Apesar dos dados perversos, é sabido que existe uma declarada ascensão da mulher preta, jovem, universitária. São mais mulheres pretas na graduação e nos programas de pós-graduação. Mais mulheres pretas empreendendo e tomando as rédeas de sua independência financeira. Mais mulheres pretas em cargos de gestão. Porém, essas mesmas mulheres, por diversas razões que rendem mais outros textos, se vêem sozinhas. É uma solidão que está pra além da falta de companhia: é a alma da mulher preta que está adoecida e não existe remédio que dê conta da cura enquanto o projeto de embranquecimento social estiver bem articulado e afastando as mulheres pretas dos homens pretos verdadeiramente dispostos a formarem famílias pretas, plenas em amor e significado político;

5. Desqualificação e redução do sentido do sexo
O sexo atrelado ao corpo da mulher preta é o fugaz, rápido, pago, superficial e sem ligação amorosa. O sexo com a mulher preta é o que permite a violência, o escárnio, a insensibilidade e a relação mercantil. Mulher preta que reclama atenção emocional geralmente é rechaçada e posta no seu lugar de "mula". O sexo com a mulher preta quase nunca dialoga com a beleza ancestral desse corpo. Nunca é o sexo simbólico: é sempre aquele no escuro dos becos, ou no silêncio do adultério. A mulher preta é sempre a outra, a coadjuvante - protagonista apenas nas questões fisiológicas, com todo o seu aparato emocional e humano desconsiderado.

     Das relações estereotipadas, rasas e compromissadas apenas com o senso comum e com o racismo, dessas não me ocupo. Mas das falas subliminares, das relações encobertas e das dores veladas, são essas as relações que busco pensar. Tentar entender como que essa perversidade exposta em praça pública não constrange o autor(!), como que ele faz chacota em horário nobre de mais da metade da população brasileira e ainda ganha um pró-labore por isso.
     Quero entender, antes de tudo, como que essa "coisificação" de nós atrasa nossa militância. Onde o Movimento Negro erra na comunicação com seu próprio povo, enquanto o racista acerta, atinge e nos engessa.

A DESUMANIZAÇÃO

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 por Karina Vieira
Foto: Tatiana Reis para Festival Latinidades
    Exóticas,  estilosas, "na moda". Hipersexualizadas, coisificadas. Estes são os adjetivos que nos colocam no lugar de estranhas, de coisas, de algo sem humanidade ou longe do que é considerado normativo. 
    Temos o dever de aceitar, respeitar a nós mesmas, a todas e a cada uma como ser humano, único e diferente. Por que é isso. Não somos iguais, mas lutamos por direitos iguais, por igualdade para além das nossas diferenças.
    Quando nos apontam na rua, riem, fazem chacota, nos humilham, sabemos o motivo: racismo. Racismo institucionalizado. Racismo televisionado e exposto nos jornais todos os dias. "Não me mate! Sou consumidora!" Não! Somos cidadãs, somos pessoas. Não queremos ser vistas como meros consumidores, como moedas de troca. Lutamos o dia inteiro, todos os dias por visibilidade, por direitos.  Direito de sermos efetivamente quem somos, por andarmos na rua com nossos cabelos crespos,  com nossos traços fenotípicos, com nossos turbantes, exaltando a nossa ancestralidade, e sermos respeitados por isso e para além disso. Somos mais do que cabelos. Utilizamos eles como ponto de partida para discutirmos racismo, preconceitos e todas as problemáticas que atingem os nossos. Sabemos que os olhos que nos julgam,  as bocas que riem de nós e as mãos que nos apontam, muitas vezes se veem refletidos em nós, e que por medo ou auto-ódio preferem ser os primeiros a fazerem chacota, do que ser o motivo dela.
     Insiro aqui uma citação de Malcom X, que explica de que forma e porque sentimos auto-ódio: 
"Temos sido um povo que odeia as nossas características africanas. Nós odiávamos nosso cabelo, nós odiávamos a forma do nosso nariz, queríamos ter um daqueles narizes longos e finos, você sabe. Sim. Nós odiávamos a cor da nossa pele, odiávamos o sangue da África que estava em nossas veias. E em odiar os nossas características, nossa pele e nosso sangue acabamos odiando a nós mesmos. Nossa cor tornou-se para nós uma cadeia. Nós sentimos que ele estava nos segurando. Nossa cor tornou-se para nós como uma prisão que não nos deixava ir por este ou aquele caminho. Sentíamos que todas essas restrições foram baseadas somente em nossa cor. E a reação psicológica foi que nossas características, nossa pele e nosso sangue se tornaram odiosos para nós. Isso fez com que nos sentíssemos inferiores, que nos sentíssemos inadequados e impotentes. E quando caímos nesses sentimentos de inadequação, de inferioridade ou desamparo, nós não temos mais confiança em outro homem negro que queira nos mostrar um caminho. Nós não pensamos que um homem negro pudesse fazer qualquer coisa séria. Nós nunca pensamos em termos de fazer as coisas por nós mesmos. Porque nos sentimos desamparados. O que nos fez sentir impotentes foi o nosso ódio por nós mesmos. E o nosso ódio por nós mesmos decorre do nosso ódio pelas coisas africanas."¹
   Que possamos matar, exterminar, todo preconceito presente em nossas práticas cotidianas. Que possamos fazer um exercício diário de olhar o outro com olhares menos acusadores, menos perversos, que os dedos apontem cada vez menos e que possamos entender que o que faz de nós seres humanos diferentes e singulares são exatamente as nossas particularidades. Ninguém é vítima da sua própria história.

Em apoio a Yasmin Thayná, Thainá Azevedo, Juliana Valeriano e todas aquelas que passam por episódios de racismo todos os dias.
¹http://www.malcolm-x.org/speeches/spc_021465.htm <Acessado em 10 de agosto de 2014>

OLHA, EU SOU DA PELE PRETA: GRAÇAS A DEUS!

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por Cecília Oliveira

Foto: Fernando Oliveira
       Há um ano e seis meses, resolvi recomeçar a vida. Balzaquiana, decidi cortar todo o cabelo e me conhecer e reconhecer como mulher negra. Foi resultado de longos estudos sobre identidade, história, negritude. Seria um gran finale de aceitação.
      Foram meses lendo sobre textura, tratamentos, cronogramas capilares etc. Era um mundo que eu não fazia ideia de que existia. Primeiro entrave: como escolher os tratamentos/produtos adequados ao meu cabelo se eu não conhecia meu cabelo? Nas leituras, descobri que existem cabelos de 2A até 4C. Mas qual era o meu tipo? Eu não fazia ideia. Eu precisava saber qual era pra saber como criar meu cronograma capilar e aprender a hidratar, nutrir e reconstruir a massa do cabelo para mantê-lo saudável. E aí, diante da minha decisão, ouvi duas perguntas: “Isso é caro? Vai dar mais trabalho?” Oras! Caras e trabalhosas eram as escovas progressivas para alisar os cabelos!
        Alisei os cabelos pela primeira vez – ao que me lembro – lá pelos 8 ou 9 anos, com a então famosa e maldita "touca de gesso". Lembro de ter me sentido absolutamente ridícula em ficar com cabeça "engessada" por mais de uma hora. Era uma coisa fedida, que deixou meu couro cabeludo vermelho e sensível durante uns dias. Desde então, a cada três meses, lá estava eu de volta, para "domar" aqueles insistentes cabelos que me tiravam o sossego – e a beleza.


      Beleza: tá aí uma coisa que "nunca tive". Sempre me achei muito feia. Magra, "cabelo duro", espinhas, "moreninha". Tudo pra ser preterida. E assim foi por muito tempo. Lembro com clareza de quando chegou a época da formatura da oitava série e precisavam ser formados pares para a cerimônia (não vou entrar no mérito dessa convenção social machista agora). Lembro que eu tinha um grupo de amigos, e nenhum deles quis entrar comigo na tal cerimônia. Ouvi um deles falando: "prefiro a Eduarda. Mais bonita". Eduarda, com seus longuíssimos cabelos lisos e branquinha, era mais bonita. Claro. Hoje entendo a beleza de Eduarda. E a minha. Lembro ainda uma outra vez em que eu estava varrendo a varanda de casa e uma pessoa, procurando por minha mãe – que é branca e viúva de um negro – perguntou se "a dona da casa estava". Cada qual no seu lugar, certo? Errado.

ANTES "MORENINHA". AGORA, NEGRA E…. GAY?
       Pixaim, palha de aço, Bombril, vassoura, leoa, sarará, cabelo duro, cabelo ruim, piaçava. Ouvi isso a vida inteira, mesmo depois de alisar o cabelo, já que ele, mesmo alisado, não tinha a aparência adequada, de naturalmente liso. Mas, aleluia, um dia chegou o dia do Big Chop ("BC" para os íntimos), a hora de cortar tudo. Eu estava tão ansiosa que não aguentaria passar pela transição, forma como muitas meninas conseguem manter o cabelo alisado até ter o tamanho suficiente de cabelo natural pra não precisar cortar "Joãozinho".

Foto: Anderson França
      Pois eu cortei "Joãozinho". E ganhei mais um rótulo imediatamente. Passei a receber olhares, questionamentos sobre minha sexualidade e até vivenciei a homofobia, quando um homem bradou: “isso é uma pouca vergonha! É culpa do Lula e do politicamente correto a gente ter que ver isso!”. Eu estava tomando um suco com uma amiga – também de cabelos curtos – numa lanchonete perto de casa. Peguei uma cadeira para “educa-lo”, mas fui contida. Melhor assim.

ACEITAÇÃO: UM ATO POLÍTICO.
     "Será que você consegue um namorado agora, com esse cabelo?", "será que consegue um emprego?", "sua criança vai sofrer bullying na escola?". Não vou dizer que não pensei nestas coisas. Mas vou dizer que pensei mais nas respostas. Eu gostaria de me relacionar com alguém que me avaliasse e me desejasse de acordo com meu cabelo? Eu gostaria de trabalhar num lugar em que a capacidade das pessoas fosse medida pelo cabelo? Eu matricularia minha criança em uma escola que mandasse cortar o cabelo, como um uniforme? Eu me submeteria ao racismo? Eu realmente quero me retirar destes debates e me recolher ou quero lutar com as pessoas pela garantia de direitos de todos e pela mudança desse cenário medíocre e criminoso?
       As respostas a essas perguntas são políticas. Somos seres políticos. Existir é um ato político. Existir como mulher negra é um duplo exercício de luta pela cidadania e plenitude de direitos. Deixar seu cabelo pro alto, no lugar onde você decidiu que ele deve estar, é uma afronta. Uma afronta à “ordem natural das coisas”, onde o negro tem seu lugar muito bem delineado – um lugar num cantinho, mais ao lado, mais na cozinha, um segundo lugar. Uma afronta ao Estado Brasileiro, que teve uma política oficial de branqueamento de seu povo, focando na miscigenação e no estabelecimento de uma população morena. Negra não. Esta coisa ruim tinha que ser apagada.

Foto: Fernando Oliveira
       Aceitar-se é uma afronta a um Estado cuja polícia federal exige que se prenda os cabelos para ter direito a tirar um documento. Afronta a um Estado que mata majoritariamente negros. Afronta a um Estado cujos cargos de chefia são ocupados em sua esmagadora maioria por homens brancos, que ganham 36% mais que os homens negros e 47,8% mais que as mulheres negras. Eu nasci pra afrontar esse Estado, pois nascer e viver sob esse Estado é uma afronta.

RACISMO SEM FIM
     Como esperar que uma criança não reproduza o racismo ou se acostume a sofrê-lo se ela não reconhece ao seu redor negros em posição que não seja subalterna? Como isso é possível sem que sequer haja bonecas negras pra brincar, bonecas com sua cor, seu cabelo, sua boca e nariz, sua identidade e que mostrem à criança que ela é bela e merece ser copiada?
     Como ser negro pode ser algo bom, não depreciativo, se pessoas da sua cor sequer aparecem no cinema, se não têm representatividade? Quantos negros protagonizam novelas que se passam no Leblon, são ricos, patrões, tem casas bonitas na beira do mar (protagonistas de senzala, em novelas de época não contam)?  Mulheres negras no cinema praticamente não existem, mesmo que nós sejamos 52% da população feminina do país.
NÃO PASSARÃO!
    Nós, mulheres e homens negros, construímos este e outros países. Carregamos o Brasil nas costas ainda hoje, mesmo ganhando bem menos pra isso e morrendo mais cedo e em maior número. Mas aprendemos a resistir e, a cada dia, aprendemos a peitar aqueles que acham que aqui não é nosso lugar. Nós vamos lutar para viver mais e melhor e vamos ensinar nossos filhos que nosso cabelo, nosso nariz, nossa pele são as características da liberdade e da resistência e que temos, sim, direito a um lugar ao sol.
Cabral, o retrato da desinteligência nacional
   Nós, mulheres negras, vamos continuar procriando, mesmo que governadores brancos nos chamem de "parideiras de marginais". Nós vamos afrontar este Estado e mostrar que nosso lugar não é na cozinha.

(O título do texto é uma alusão à música de Cabelo Pixaim, de Jorge Aragão.)

Cecília Oliveira é Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil. Indicou o texto, originalmente postado no site Ano Zero, para ser postado no blog MBP. 

ENCRESPANDO - 2ª EDIÇÃO

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por Equipe MBP
Arte: Era Uma Vez o Mundo
      Há um ano colocamos em prática um dos projetos pelos quais o Coletivo Meninas Black Power existe: promover um evento no mês da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha para reunir as melhores conversas sobre cultura e beleza negra, reflexões sociopolíticas e encontros entre iguais, onde tod@s possam ser espelhos. Uma verdadeira celebração! Nós conseguimos, chamamos de Encrespando, e pela segunda vez estamos juntas, fazendo este momento incrível acontecer. 
     Encrespando é o evento oficial do Coletivo Meninas Black Power, acontecerá pela segunda vez no Rio de Janeiro e estamos trabalhando para que em breve se espalhe nos outros Estados onde também estamos representadas. Nossa primeira edição aconteceu em 20 de Julho de 2013, no SINDSPREV, Rio de Janeiro. Confiram abaixo um pouco do que vivemos por lá:
      Desta vez temos o privilégio de estar no Renascença Clube, espaço de referência para a resistência cultural negra carioca, que zela por manter a tradição sempre viva. Preparamos com carinho uma programação repleta de diálogos e momentos que vão promover conhecimento de nossa história, quem nós somos enquanto mulheres e homens negros. 
      Começaremos com a oficina de turbantes ministrada pela Colares D'Odarah, ícone importantíssimo na arte e educação que emanam das amarrações de um turbante. Esta oficina tem vagas limitadas e a inscrição deve ser feita através do email encrespandombp@gmail.com. Em seguida vamos ouvir a palestra trazida pela A.M.A.R sobre "A autoestima da mulher preta". O workshop sobre cabelo crespo é provavelmente o momento mais aguardado. Numa conversa conduzida pelo Coletivo MBP, vamos dialogar sobre vivências, cuidados e possibilidade de nossos cabelos crespos. O próprio Coletivo conduz na sequência a conversa "Lynch e seus reflexos na sociedade negra contemporânea", dialogando sobre a Carta de Willy Lynch e seus reflexos atuais.
        Também vamos nos deleitar com a dança do grupo Femme e da bailarina Valéria Moña, curtir o som do grupo de pagode composto por mulheres da A.M.A.R, o rap contagiante de Mr. Ronney e, fechando nosso dia com muita grooveria, o som da Banda Consciência Tranquila, que embala todo mundo nos encontros incríveis do Baile Black BomNo Encrespando Kids, nosso espaço infantil que estará aberto para receber crespinhas e crespinhos durante o evento e é uma grande novidade, haverão atividades conduzidas pela recreadora Natália Regina, contação de histórias afirmativas com Kemla Baptista e uma brinquedoteca recheada de diversão e assinada pelos parceiros da Era Uma vez o Mundo. O Bazar Encrespando, nosso espaço de afronegócios, conta com A Quixotesca, Colares D’Odarah, D'Negro, Era Uma Vez o Mundo, Lulu e Lili Acessórios, Makeda Cosméticos, NBlack, O Alquimista de Chad, Pixaim Acessórios, Soul Bamba e Trançando Ideias
       Ah! Quem passar pelo Encrespando também vai conhecer a carinha de todas as integrantes do Coletivo na exposição “Bonec@ Pret@ é identidade”, assinadas pela alta costura de Srta. Chris e as bonecas lindas de Era Uma Vez o Mundo.
Arte: Era Uma Vez o Mundo
      Desejamos muito ver vocês na próxima Sexta-feira, fazendo história junto com o Meninas Black Power e compartilhando muito amor. O Encrespando é nossa casa e queremos que quem passar por lá possa desfrutar de um entretenimento saudável, conscientizador, que reflita toda beleza e resistência de nossa negritude. Venham com a gente!

Incrições*: 
http://goo.gl/0QGr1E

Programação completa:
16:00 às 16:30 - Abertura dos portões
16:30 às 17:00 - Abertura e oficina de turbantes com Colares D'Odarah
17:00 às 17:40 - Palestra A.M.A.R - "A autoestima da mulher preta"
17:50 às 18:20 - Workshop MBP - perguntas e respostas sobre cabelos crespos, dicas de cuidados e penteados
18:30 às 19:10 - Conversa Crespa com o Coletivo MBP - "Lynch e seus reflexos na sociedade negra contemporânea"
19:10 às 19:20 - Apresentação do grupo de dança Femme
19:30 às 19:40 - Apresentação de dança afro com Valéria Monã
19:50 às 20:20 - Apresentação do grupo de pagode A.M.A.R
20:30 às 20:40 - Apresentação do grupo de dança Femme
20:40 às 21:00 - Apresentação do rapper Mr. Ronney
21:00 às 22:00 - Apresentação da Banda Consciência Tranquila 

Programação do Encrespando Kids:
17:10 às 17:30 - Workshop "Como cuidar do crespinho" com Renata Morais (idealizadora da Lulu e Lili Acessórios e integrante do Coletivo MBP) - dicas de cuidados e penteados para cabelos infantis
17:40 às 18:30 - Contação de histórias 
18:40 às 19:20 - Hora do alongamento - Preparando o corpinho pra se movimentar 
19:20 às 20:00 - Vamos Dançar? 

* A entrada é franca, mas as incrições devem ser efetuadas para fins de controle e inclusão nas promoções que acontecerão no decorrer do evento. As inscrições estarão disponíveis até 24/07, às 12h.