MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #11 - KATIÚSCIA RIBEIRO

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por Karina Vieira
Foto: acervo pessoal
       Professora de Filosofia, poetisa, formadora, educadora. Katiúscia Ribeiro é mulher preta em essência. O sentido de comunidade que tento resgatar em vida foi ela que me ensinou. Essa foi uma das entrevistas mais aguardadas por mim e sabem a pergunta que estou fazendo sobre a mulher preta que todo mundo deveria conhecer? Ela é uma das minhas respostas. Não se sai de um a conversa/bate-papo/diálogo com a Katiúscia sem uma troca rica e engrandecedora. Poderia ficar rasgando muitos elogios para ela, mas paro por aqui pra vocês conhecerem melhor.

MBP - Quem é você? 
Katiúscia Ribeiro - Mulher preta de Asè , de luta preta em luta preta!

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude?
KR - Venho de uma família de militância preta. Meu avô era da Frente Negra Pelotense, me levava em reuniões desde de criança; minha mãe, ativista potente, deu conta de continuar essa luta. Aos 15 anos de fato soube o quanto era fundamental lutar para não esvair em dor racial. Meu primo/irmão aos 19 anos foi violentamente assassinado pela polícia, por ser - como em tantos outros casos - "confundido com um bandido". Ao ver seu corpo preto no necrotério e os fortes gritos de minha mãe, percebi que era necessário reagir para não morrer... A ele e por ele persisto. (Ainda dói...) A cada segundo respiro a força de nossos ancestrais para permanecer e prosseguir.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão?
KR - Minha profissão não foi escolhida por mim. Passei no vestibular em Economia, porém fiquei doente e perdi o prazo de inscrição. Tive que entrar nas vagas ociosas com a pretensão de trocar para a primeira opção depois de um período, no entanto cada tentativa de troca foi totalmente sem sucesso e nesse percurso o amor à Filosofia foi se consolidando. Fui vendo nessa uma arma potente na libertação preta. Hoje agradeço aos ancestrais por frustrar todas as tentativas de mudança de curso. Estou e sou realizada nessa escolha. Creio ela foi feita por eles.

Foto: acervo pessoal
MBP - Como foi o caminho da sua graduação?
KR - Difícil e pesado... Mas consegui concluir no tempo preciso.

MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram?
KR - Qualquer preta e preto que sobrevive a essa masmorra mental de dominação a qual fomos submetidos me inspira... Todos os meios utilizados na busca de nossa emancipação servem como combustível motivacional. "Por todos os meios necessários", como disse Malcolm X.

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
KR - A preta que respira o ventre africano.

MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar? 
KR - Cada tijolo colocado é fundamental e preciso. Muito temos que trabalhar e solidificar essa muralha. Me alegra saber que muitos sacos de cimentos já foram utilizados para construção desse muro de resistência, no entanto ainda não está na hora de pausar e respirar. Precisamos continuar a erguer essa muralha preta.

MBP - Como você lida com a sua estética negra?
KR - Tenho um cuidado diário comigo. Entendo que o fortalecimento da estética faz parte desse ato de amar-se a si que o racismo luta para neutralizar. O fortalecimento de nossa autoestima nos renova enquanto seres africanos.


MBP - O que é representatividade pra você?

KR - Só digo: "representatividade importa e muito". Ao olhar o outro, é minha imagem refletida , meu espelho preto.

MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #10 - SILVANA BAHIA

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por Karina Vieira

Foto: Andressa Lacerda
     Coordenadora de comunicação do Olabi, mestranda em Territorialidades na UFF, comunicadora do KBELA filme mais babadeiro de 2015 - e AFROFLIX, o canal de produção audiovisual feito por pretas e pretos. Sil Bahia é a cara da comunicação (eu enquanto comunicadora me espelho nela ). Com uma sagacidade incrível e discutindo espaço e disputa de narrativa, ela nos mostra que lugar de preta é onde ela quiser.


MBP - Quem é você? 
Sil Bahia - Eu sou a Silvana Helena Gomes Bahia, mulher, negra, sonhadora, filha da Edinair e do Léo, irmã do Leozinho. Comunicadora social, curiosa, trabalhadora e em constante transformAÇÃO. Apaixonada por histórias, narrativas e pelas pessoas que encontro no caminho. Leonina com ascendente em áries e lua em sagitário.


MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude? 

SB - Acho que a descoberta da minha negritude se deu desde que nasci. A minha relação com ela é que foi se transformando com o passar do tempo. Quando criança, quando era chamada de "macaca" por coleguinhas, tinha um lado meu que tudo que queria era não ser negra. Claro que eu não entendia e mal sabia o que era racismo nessa época. Só sabia que tinha uma coisa em mim que me fazia sentir "menor". Por outro lado, na minha casa, meus pais sempre se preocuparam e cuidaram da minha autoestima. Mas era difícil. Na adolescência, quando entrava numa loja com minhas amigas brancas e elas eram atendidas e eu não, comecei a me ligar no por que isso acontecia. Sempre me relacionei bem com as pessoas e acreditava que todo mundo era "do bem" até que se provasse o contrário, mas o racismo e o machismo muitas vezes aparecem e são reproduzidos de formas sutis e não menos dolorosas, e às vezes por pessoas que gostamos, amamos. E é difícil se relacionar. A questão que percebo é que com maioria das pessoas negras, sobretudo mulheres negras, a gente demora um tempo para perceber essas "sutilezas". Porém, uma vez que você percebe, que você olha de verdade para isso, nunca mais deixa passar batido. Só comecei a me sentir plenamente bem relacionada com a minha negritude (na alegria e na dor) quando acessei e tive contato com outras referências, com outras mulheres negras. Durante a faculdade o encontro com Denise Lima e Ricardo Brasil foram centrais na minha construção e entendimento de mim mesma enquanto mulher e negra. Estudava numa universidade particular, branca, tijucana, com as primeiras turmas de PROUNI. Ali, pela primeira vez entendi o que era aquilo que eu achava que não sabia o nome mas sabia: racismo. Conhecer mulheres incríveis como Jenyffer Nascimento e Alessandra Tavares e poder dividir dúvidas, construir e compartilhar vivências e experiências foram determinantes. A Literatura Marginal e a cena periférica de SP no começo de 2010 foram fundamentais nessa construção. De lá para cá, foram muitos aprendizados e pessoas importantes que me acompanham nesse caminho. Raika Julie e Thiago Ansel, dois grandes amigos e parceiros que conheci quando cheguei à Maré para um estágio no Observatório de Favelas, também foram e são super importantes nesse fase, sobretudo nas escolhas no campo profissional. Poderia citar muitos, mas finalizando aqui, e deixando bem escuro que essa descoberta é infinita. Estou sempre me relacionando com ela. Quero citar alguns amigos que colaboram e somam muito nessa construção e desconstrução: Ney Wellington Bahia, Bruno F. Duarte, Karina Vieira, Yasmin Thayná, Rodrigo Reduzino, Erika Cândido, Monique Rocco.


Foto: Andressa Lacerda
MBP - O que te levou a escolher a sua profissão?

SB - Quando criança eu quis ser tanta coisa que quando tive a oportunidade de entrar na universidade foi difícil escolher [risos]. Quis ser dentista, musicista, médica, artista. Tive algumas profissões antes de entrar na faculdade. A primeira delas foi babá, depois trabalhei em petshop, fui manicure, e nos empregos mais formais, de carteira assinada, já trabalhei como assistente administrativo e digitadora. Quando trabalhava como digitadora numa empresa grande, comecei a sacar que se quisesse ganhar mais, realizar todas as viagens que sonhava (nessa época eu só queria ganhar dinheiro para viajar), e o mais importante, fazer algo que tivesse sentido para minha existência, precisa estudar. Ficava me perguntando se seria digitadora à vida toda, porque não tinha muito sentido pra mim e mais tarde entendi que trabalho não tem que ser só para ganhar dinheiro para pagar as contas. A empresa que trabalhava pagava 50% da universidade apenas em alguns cursos. Incentivada por meu tio Ney, fui cursar a comunicação social com ênfase em jornalismo. Nunca sonhei em ser uma repórter brilhante, mas o jornalismo me ensinou muitas coisas. Mais tarde vi que não preciso estar apenas numa "caixinha", que posso fazer muitas coisas dentro da comunicação e que esse é o campo que quero disputar. A comunicação tem muito a ver comigo e com as coisas que acredito. Primeiro porque meu trabalho me possibilita estar em contato com diversas pessoas, conhecendo e me relacionando; segundo por me dar a possibilidade de criar, construir e desconstruir novas (e velhas) narrativas sobre o mundo, sobre a mulher, sobre a negritude.


MBP - Como foi o caminho da sua graduação?

SB - Foi um desafio. Na metade do curso percebi que não tinha o perfil padrão do "jornalista" e que não era na maior empresa de comunicação do país o meu lugar. Foi frustrante demais, porque me sentia culpada por tanto investimento da mãe que sempre trabalhou muito para que a gente (meu irmão e eu) pudesse estudar – e a incerteza de conseguir um emprego, algo que me permitisse ser independente financeiramente, rondava meus pensamos durante os 4 anos que fiquei na universidade. Na época de procurar estágio fiz vários processos seletivos. Passava nas provas, mas sempre ficava nas entrevistas e não entendia como isso acontecia. Acho que estava procurando em lugares que não tinha a ver com o que eu queria mesmo, embora nem eu soubesse o que eu queria. Surgiu a oportunidade de trabalhar num projeto novo que estava começando, a Agência de Redes para a Juventude. Ali comecei a conhecer outras formas de trabalhar com comunicação e entendi que existia um campo enorme a ser explorado por mim no jornalismo social, ativista. No mesmo período passei para um estágio no Observatório de Favelas e nunca mais tive dúvidas sobre o que queria fazer da vida. A experiência na Maré durante quase 5 anos, as pessoas que conheci... Costumo dizer que a minha formação, formação profissional mesmo, aconteceu ali.


MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram? 

SB - Ih são muitos! A primeira delas é minha mãe Edinair Gomes Leite, por toda a coragem, garra e capacidade de amar. É difícil listar todos os nomes, mas aqui vai: Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Karina Vieira, Raika Julie, Yasmin Thayná, Alessandra Tavares, Jenyffer Nascimento, Denise Lima, Elza Soares, Tássia Reis, Chimamanda, Jaciana Melquíades, todas as manas do Coletivo Meninas Black Power e as Mulheres de Pedra, Beyonce, Rihanna, Bell Hooks, Taisa Machado, Janaína Damaceno, Léo Bahia, Léo Bahia Filho, Ney Wellington Bahia, Bruno F. Duarte, Thiago Ansel, Rodrigo Reduzino, Paulo Rogério, com certeza estou esquecendo de muitas pessoas.


MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?

SB - Todas essas que citei acima. [risos]


MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar? 

SB - De verdade eu não sei tangibilizar os avanços e medir o quanto ainda temos que avançar. O que eu vejo é que temos muita luta pela frente. Avançamos sim e é importante olhar para isso. De várias formas sinto que contrariei muito as estáticas quando me percebo no individual, mas sei que essas conquistas não são apenas minhas. Não ando só. Carrego um monte de gente comigo e acredito nessa coletividade que tem como base o amor. Mas a luta não tem hora para acabar, e o nosso povo está ai, morrendo. Como que a gente avança nisso? Acho que a gente tem que aprender a cuidar da gente e dos nossos. A dimensão do cuidado, do afeto, do amor, salva muito e sinto que a gente cuidou demais dos outros, dos filhos dos outros e desaprendemos a cuidar de nós. Experimentar e estudar também é importante. E não me refiro a academia, a universidade apenas, simplesmente porque esse é apenas um dos caminhos e a gente tem que estar em muitos caminhos, nos que a gente quiser estar. Me refiro a busca de conhecimento em todos os âmbitos: sobre nós mesmos, sobre as coisas que comemos e ingerimos, sobre a história do povo negro, do Brasil, da África, na política, na cultura e em outras mil áreas. Resistir inventando. E para reinventar, remixar, a gente tem que conhecer as coisas e para conhecer a gente tem que estar bem.


MBP - Como você lida com a sua estética negra?

SB - Lido bem. Gosto de cuidar do cabelo e da pele. Nos últimos tempos estou fazendo low poo e gostando. Basicamente lavo os cabelos e passo um creme para pentear. Às vezes rola uma hidratação, nutrição e afins. Tenho muito que aprender sobre cuidado com os cabelos. Uso produtos que me indicam, vou testando e se gosto acabo usando mais. Sou viciada em creme hidratante. Gosto de me vestir com roupas confortáveis, misturando looks urbanos com tecidos mais tradicionais. Ah, e gosto de cores, muitas cores.


MBP - O que é representatividade pra você?
SB - Representatividade para mim é disputar sentido, criar referência, narrativa. O mundo em que vivemos é muito plural e cada vez mais a gente vai ter que lidar (ainda bem) com essa questão. Não vai dar para impor padrões goela abaixo sem alarde, sem luta!


Conheça o trabalho da Silvana Bahia:

MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #9 - INAÊ MOREIRA

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por Karina Vieira

Foto: safira Moreira
      Inaê Moreira é o corpo negro. No espaço, no tempo, no mundo. Inaê dança, se movimenta e baila, por que esse corpo é festa, é ensejo, é vontade e é quereres. Querência de caminhos, curvas e formas de se posicionar aqui ou lá na frente. Corpo negro esse que joga por terra barreiras que antes o prendiam, que amplia horizontes na busca da descoberta.

MBP - Quem é você? 
Inaê Moreira - Sou Inaê, mulher, negra, artista. Defino-me como uma insistente sonhadora. Um corpo inquieto e ansioso por descobrir novos caminhos.

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude?
IM - Minha mãe Angélica, mulher negra, sempre foi militante na Bahia. Educada por ela, a consciência da minha negritude começou cedo. Naturalmente o círculo de amigos da família, assim como o ambiente do Candomblé, no qual fui criada, eram espaços de empoderamento.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão? 
IM - O desejo por ser artista começou como reflexo de uma relação familiar saudável e uma vontade de seguir o que pulsava em mim desde criança. Meu pai, artista plástico e design de jóias, foi um grande responsável por influenciar minhas escolhas. Desde pequena a dança e a expressividade eram virtudes que eu carregava, e quando comecei a fazer aulas na Escola de Dança da FUNCEB na Bahia, com 10 anos de idade, tive certeza que esse era o caminho a percorrer. Estimulada por meu pai que me levava a espetáculos de dança e me apoiava em todas as decisões, prestei vestibular para Dança na UFBA, chegando a me formar como professora. Anos depois me formei no Curso Integral de Circo na Argentina. Hoje me considero uma artista do corpo, com uma trajetória que atravessa diversas linguagens.

MBP - Como foi o caminho da sua graduação? 
IM - No Curso de Licenciatura em Dança me dediquei profundamente ao estudo acadêmico. Fiz parte de dois projetos de pesquisa: o "Memorial da Escola de Dança" e "GDC – Grupo de Dança Contemporânea", viajando com o espetáculo "POP-UP".
Foto: Safira Moreira
MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram?
IM - Elza Soares, Nina Simone, Mercedes Baptista, Conceição Evaristo, Virgínia Rodrigues, Chimamanda Ngozi Adichie.

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
IM - A minha mãe. Angélica Moreira, pedagoga, chef de cozinha. Uma grande mulher negra que luta todos os dias pelo que acredita com muita elegância. É a pessoa mais inteligente, íntegra e elegante que eu conheço. [risos]

MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar? 
IM - Avançamos pouco. Na escola de Circo fui a única aluna negra. Na aula de ballet continuo sendo a única. No meu trabalho sou a única professora negra. Muito temos que avançar ainda, ocupando esses espaços. Nas artes do corpo ainda estamos reduzidas a poucos espaços como o das aulas ou apresentações de danças de matrizes africanas ou capoeira, mas no ambiente da Dança Contemporânea, Moderna, Ballet Clássico, Circo, Yoga, etc., somos poucas e poucos. Sinto uma grande falta de representatividade nesses espaços.

MBP - Como você lida com a sua estética negra?
IM - Sempre usei o cabelo natural e o tema da aceitação sempre foi trabalhado desde pequena. Trançar o cabelo, exibir o black, valorizar a estética negra, é algo que trago de berço.


MBP - O que é representatividade pra você? 
IM - Representatividade pra mim é ocupar cada vez mais espaços de poder na nossa sociedade, empoderando os mais novos, valorizando aquilo que a nossa cultura produz. É me ver representada em uma artista negra, ser atendida por uma médica negra, ver um anúncio de margarina com uma família negra. Sinto que estamos dando os primeiros passos com relação a representatividade no Brasil.

Conheça a dança de Inaê Moreira:
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MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #8 - RENATA FELINTO

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por Karina Vieira
Foto: acervo pessoal
      Renata Felinto é artista. Dizendo assim, nem parece que essa palavra dá conta de tudo que essa mulher já realizou. Renata transborda, grita, põe na voz, no desenho, no corpo, na vida toda a arte que lhe cabe, seja nos seus post, no seu Flickr ou mesmo no seu blog. É paulista e atualmente reside em Crato, mas leciona em Juazeiro do Norte, atuando como professora na URCA (Universidade Regional de Cariri). Coordenadora/parceira de ações em instituições como a proponente da Pinacoteca do Estado de São Paulo e conselheira editorial da revista O Menelick 2º ato.

MBP - Quem é você? 

Renata Felinto - Eu sou Renata Aparecida Felinto dos Santos. Adotei Renata Felinto como sintético porque é menos comum. Ele é parte da família de meu pai, porém adoraria ter o Nascimento Benedito da família da minha mãe, herança da nossa escravização que meu pai achava feio e não deixou colocar, porém que considero importante não esquecer. É uma marca a ferro simbólica e duradoura. Não consigo me definir apesar de sempre pensar sobre mim, minha existência e etc. Poderia dizer que sou como uma formiga que faz tudo aos poucos e simplesmente faz, porque deve ser feito.

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude? 
RF - Minha família é negra da zona norte de SP por parte de pai e de mãe. Ela é negra na cor que o senso comum acha que deve ser o negro, somos marrons de cabelos crespos. Assim, nunca usamos a palavra moreno para nos definir, sempre fomos negros. O que aceitei ao longo da minha vida foi a relação com meus cabelos cujos cuidados estavam sempre entre as tranças e a chapinha ou algum tratamento químico para "soltar" os cachos, que me fizeram acreditar ser mais fácil. Minha família sempre conversou sobre racismo do ponto de vista da vivência e não do ativismo, até porque eram pessoas muito simples, mas com uma consciência de coletivo étnico-racial. Aos 25 anos me relacionei com um homem branco que perguntou por que eu não deixava meus cabelos naturais, que ele considerava lindo. Aí criei coragem porque tive o aval do homem que eu amava e que me amava, ele me achava bonita assim. Essa coisa de chapinha, química, entrelaçamento tem a ver com a insegurança que depositam na nossa imagem natural.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão?
RF - Eu sempre gostei de imagem, de cor, de observar especialmente imagens que me transmitiam algum significado. Juntei a esse gostar o fato da arte ser uma área das mais importantes para se pensar a humanidade. Cada vez que aprendia mais, me encantava mais. Eu gostaria de ser somente artista visual, porém também gosto muito da pesquisa, da escrita, da reflexão por meio da história das artes visuais. Decidi quando me dei conta de que havia uma universidade para além da lendária e elitista USP que oferecia o curso de artes visuais e que me parecia menos impossível de ingressar, a UNESP. Eu ouvi quando criança e disse que queria cursar faculdade: "quem vai pagar?". Sequer minha família sabia que existia universidade pública, para termos ideia das dificuldades e da exclusão. PROUNI, FIES, ENEM, agradeçam que existem essas políticas públicas. Precisamos de mais outras, entretanto, essas hoje são fundamentais para o aumentos de negras e negros nas universidades.


Foto: acervo pessoal
MBP - Como foi o caminho da sua graduação? 
RF - Ainda no Carlos de Campos que é uma ETEC voltadas às artes que existe no bairro do Brás/SP, uma amiga de sala falou que prestaria vestibular em artes plásticas na UNESP, que ate então eu desconhecia. Pensei muito praticamente: "se ela estudou os mesmos conteúdos que eu e vai prestar, é possível que eu passe". Fiz um ano de cursinho aos sábados trabalhando a semana inteira das 08h às 18h. Eu dormia nas aulas de exatas porque eram e são muito difíceis para mim, e chegava cansada de Itaquera até o Butantã, não existia metrô ainda, tinha que tomar dois ônibus e metrô... Perdi o vestibular neste ano e estudei em casa no ano seguinte quando tentei  novamente. Não passei na primeira chamada e nem vi mais a lista, nem imaginava que havia a tal lista de espera, desistências e tudo mais. O mundo acadêmico era totalmente desconhecido. Semanas depois chegou um telegrama dizendo que se eu não comparecesse para fazer a matrícula naquela semana, perderia a vaga. Minha irmã quem me deu a notícia muito feliz!!! Então, era diariamente um trajeto de três horas da COHAB II até o Ipiranga, quando não existia estação de metrô Ipiranga. Ônibus, metrô e ônibus. Acordando 5 da manhã para chegar atrasada ou às 07h30, se chegasse cedo. Dificuldades para adquirir livros, materiais, intercalando o estudo e o cumprimento dos trabalhos acadêmicos e artísticos com o trabalho de telemarketing. Ao mesmo tempo, eu pensava sobre a ausência nas disciplinas no curso em relação aos conteúdos de história da arte que tratassem da cultura africana, afro-brasileira, mas eu nada dizia. É um lugar muito opressor. Isso me incomodava demais e me invisibilizava diante dos colegas, porque é aquela coisa: "nossa história", mas eu não apareço na história. Haviam os professores como meu orientador, Percival Tirapeli, que compreendia essa minha realidade e aqueles que me humilhavam por chegar atrasada (por ser negra e pobre, na verdade). Foi difícil, mas valeu a pena não ter desistido. Era a única alternativa que eu via para ter conforto, ser uma profissional realizada ou próxima disso.

MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram?  
RF - Olha, as mulheres pretas me inspiram demais. Exceto as que corroboram o machismo, todas me representam. Os homens pretos me inspiravam, porém também me decepcionaram e decepcionam muito quando observo que SEMPRE, sem exceção, são as mulheres brancas que escolhem como parceiras, como uma espécie de troféu que valida o sucesso deles e, ainda trazem justificativas absurdas como "amor não tem cor". Quando esses homens estudam e conhecem a nossa história parece um grande contrassenso, trabalham com a nossa história, porém não servimos para fazer parte das histórias deles sendo tratadas com amor e respeito. Somos irmãs mesmo, não companheiras. Dizer que não existimos no meio deles, que não ascendemos social e profissionalmente, não é verdade. Pois bem,  gosto muito do Carlos Moore, ele é fantástico, aprecio a postura dele no mundo e o aprender a nos amar, a nós negras. Eu mencionaria também o Emanoel Araújo, evidentemente, pelo conjunto de sua obra; o Sidney Amaral com uma linda pesquisa artística na qual tem trabalhado afetividade, estou esperando ele chegar nesse lugar do relacionamento; o Salloma Sallomão, que tem uma maravilhosa pesquisa sobre etnomusicologia e teatro negro; o Nabor Júnior pela sua ação com a O Menelick 2º ato; meus irmãos o Marcos, Edson, Victor, por estarem se encontrando, se repensando, fazendo seus corres com honestidade. Sobre as mulheres, eu admiro cada mulher negra sobrevivente neste mundo, cada uma, até a Naomi Campbell tão criticada por ser "mal educada". Negra tem que se submeter, né? Só me chateia as que coadunam com a violência ao manter relações, mesmo de sociabilidade, com homens que apresentam comportamento machista, violento e abusivo quando isso atingiu amigas, conhecidas, desconhecidas, ou a história pública. Acho um absurdo! Mas eu gostaria de destacar a minha mãe, Lilian, um verdadeiro exemplo, a Rosana Paulino que tem um impacto enorme na minha produção de artista visual, a corajosa Stephanie Ribeiro, a Djamila Ribeiro, a Ligia Ferreira, a Aparecida Bento do CEERT, a Cecília Calaça, a Elizandra Souza, Elvira Diangany Ose, a Diane Lima do NoBrasil, a Janaina Barros, a Venessa Lambert, minha tia Leila, a vó Alba, , a tia Célia, a irmã Roberta Felinto. Enfim, cada uma de vocês é uma sobrevivente da falta de amor, da falta de empatia, de carinho, de cuidados, de respeito, em maior ou menor grau, e eu admiro que estejam em pé, que levantem a cada manhã dispostas a viver num mundo que não nos ama como deveria.

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
RF - Todas as atrizes da Capulanas Cia de Arte Negra: Débora Marçal, Priscila Obaci, Flávia Rosa, Adriana Paixão e Carol Ewaci. A Janaina Barros, artista visual. A Elizandra Souza poeta, a Luciane Ramos dançarina, a Michelle Mattiuzzi que é performer. Mulheres negras que têm transformado as nossas experiências profundas, dolorosas, afetuosas em arte.

MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar?
RF - Enquanto mulheres negras nós pouco avançamos. Ainda morremos mais nos partos, somos as maiores vitimas de câncer do colo do útero, somos as que mais sofrem violência doméstica e sexual, somos as mulheres abandonadas que criam as crianças sozinhas, somos as mulheres com quem transam no meio da noite e não levam para jantar. Ao mesmo tempo somos as empreendedoras que mais crescem economicamente, as que mais estudam agora com as políticas públicas, as que estão aprendendo, apesar de tudo, a amar a nossa natureza negra de cabelos que crescem em direção aos céus, somos as misses [risos]. Temos que aprender a nos impor diante do amor, ele não pode tudo, ele não nos governa.

MBP - Como você lida com a sua estética negra? 
RF - Para os cabelos eu uso linha específica para cabelos crespos da Lola, a Crioula. Xampu, condicionar e umidificante de coco. Para o rosto eu uso Dove para banhar e lavar o rosto. Uso hidratante no rosto e no corpo. Eu saio sempre maquiada. Gosto, me faz bem. Uso sempre o mesmo perfume, uma colônia de proteção que deixo junto das minhas entidades. Gostaria de fazer exercícios, mas agora não tenho nenhum tempo mesmo.

MBP - O que é representatividade pra você?
RF - É me ver, ou ver alguém que se pareça comigo em TODOS os espaços. Representatividade é equidade.

Conheça as artes da Renata Felinto: Flickr

MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #7 - ERIKA CANDIDO

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por Karina Vieira

Foto: acervo pessoal

      Erika Candido é amor. Mais que amor. Erika é potência combinada com querência, com fome de fazer. E faz. Ela é produtora de 3 filmes que quebraram a hegemonia branca do cinema brasileiro: Kbela, Elekô e Quijaua. Isso é querer e, junto com uma equipe incrível, fazer. Essa é Erika Candido, mulher preta referência.

MBP - Quem é você? 
Erika Candido - Meu nome é Erika Candido, preta, mãe do maravilhoso Gael, filha de Eliane Candido e Paulo Marinho, nascida na zona norte do Rio de Janeiro, integrante do coletivo Mulheres de Pedra, produtora audiovisual, mas que já atuou na produção de teatro e da música e que acredita que a arte é transformadora! Me defino como uma mulher preta guerreira, que atua em vários projetos pessoais e profissionais para dar conta do desenvolvimento do meu filho, sonhadora, e que está na luta para construção de novos caminhos.

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude?
EC - Me descobri em quanto negra quando passei a enxergar mulheres negras incríveis que não tentavam se esconder para se encaixar nos padrões impostos pela sociedade. Mulheres que se apresentavam ao mundo simplesmente pelo que eram e não pelo que precisavam ser. Mulheres de Pedra foi crucial nesse caminho, aquele quintal, aquelas mulheres... nossa, é puro amor! Mas também poder realizar obras audiovisuais que me colocavam em confronto com minhas dores, anseios, lembranças e provocações ancestrais, foi uma reviravolta na vida. Nem sei dizer bem o que foi tudo isso, mal conseguia falar sobre, mas foi um momento muito difícil, na verdade ainda é difícil, a caminhada é árdua, de muita luta, fortes dores, mas também de importantes vivências e grandes realizações coletivas. Sinto cada dia mais a necessidade de seguir nessa caminhada lutando por dignidade para o povo preto, por espaço, por possibilidade, por sonhos e por menos estatísticas negativas.
Cara, meu filho precisa poder sonhar e ter acesso a possibilidades de realizações.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão? 
EC - Sempre quis fazer algo que que eu pudesse me comunicar. Quando jovem não sabia muito bem o que era, não tinha tanto conhecimento das possibilidades e escolhi o jornalismo como um caminho dessa estrada. Depois de um tempo estudando comunicação, percebi que esse ato de comunicar pra mim não seria tão óbvio assim, pois eu tinha uma proximidade muito grande com as artes e fui buscar esse comunicar pela arte e entender como seria isso.
Como eu ia falar com as pessoas sem estar nos palcos ou diante das câmeras? Fui viver experiências fora da faculdade, fui buscar ferramentas que pudessem me abrir esse caminho e foi durante essas buscas que descobri que existia uma galera que estava nos bastidores e que também fazia parte do show! Descobri que produzir uma obra é uma das coisas mais incríveis da vida. Que construir, desenrolar, se envolver no processo de realização é o que me faz feliz profissionalmente e pessoalmente. Ver o público vidrado numa parada que me dediquei para fazer acontecer, me faz chorar, me emocionar com que produzo é meu combustível para seguir esse caminho. Não consigo descrever o que sinto ao saber que a arte que produzo gera diálogo, reflexão, reconhecimento, empoderamento e amor.

MBP - Como foi o caminho da sua graduação?
EC - O caminho da minha graduação não foi nada diferente da maioria dos jovens negros. Trabalhei para pagar minha faculdade, tranquei em vários momentos por falta de grana, por falta de tempo, pois precisava trabalhar. Faltando pouco tempo para concluir o curso, consegui uma bolsa na faculdade por ser integrante de um projeto social, mas mesmo assim precisei trancar para dar conta da rotina de trabalho. Terminei meu curso com período maior do que levaria se tivesse tido mais conforto e tranquilidade para ser feito, mas nada disso diminui o meu orgulho de ter conseguido terminar minha graduação. Digo isso não só pelo que representaria para minha vida profissional e social, mas também por ter conseguido dar a alegria pros meus pais de dizerem “Minha filha se formou!”. Eles são muito merecedores disso.

Foto: acervo pessoal
MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram? 
EC - Minha mãe que muitas vezes não entende muito sobre meus pedidos, meus sonhos, mas embarca da mesma forma por acreditar que é algo que vai me fazer feliz. Minha vó por todas as conversas que tínhamos quando jovem, por ter acreditado tanto nas minhas ansiedades e que hoje tão tomando formas tão lindas. Monique Rocco por ser tão presente em minha vida todos esses anos, e ter me levado de encontro ao coletivo Mulheres de Pedra, e que hoje não me vejo mais longe de toda a vivência e amor que esse coletivo me proporciona. Todas as Mulheres de Pedra, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Sil Bahia, Karina Vieira, Dandara Raimundo, Isabel Zua, Regina Celi (minha rainha dos dreads), as minas do Afrofunk, e tantas outras mulheres pretas, fortes, guerreiras e incríveis que me inspiram diariamente e que não me lembrei de colocar aqui. Já sobre os pretos destaco meu avô que foi o velho mais gente boa que conheci em toda minha vida e nos deixou meses atrás mas com a certeza de que sua memória será mantida pra sempre em nossos corações. Meu pai com sua incrível parceria. Meus irmãos. Meu pequeno grande Gael que diariamente me ensina, me mostra um amor incondicional e incríveis ensinamentos. E os amigos Anderson Xucka e Bruno F. Duarte com seus corações e fazeres maravilhosos. Certamente esqueci de vários nomes, pois sou péssima nisso! (risos)

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
EC - Eu queria que o mundo conhecesse muitas mulheres pretas incríveis que eu tenho a honra de conhecer e de serem presentes em minha vida. Mas de verdade, eu gostaria que o mundo conhecesse minha mãe! Uma mulher preta, guerreirona, nascida na década de 50 em Vicente de Carvalho, na zona norte do Rio e que durante os anos 70 se formou em comunicação. Poxa, minha mãe se formou numa época em que frequentar academia para alguém na condição dela era quase impossível!!!! Claro que hoje temos muito que caminhar, em muitos espaços essa condição não mudou. Mas eu vejo com muito orgulho essa conquista, pois foi lá e venceu as estatísticas da época! Isso é lindo demais! Quero que o mundo conheça a mulher que acredita em muitos dos meus sonhos, mesmo não confiando tanto em alguns momentos! (risos)
Discordamos em vários pensamentos, e eu estou aprendendo a aceitar com mais naturalidade, já que pertencemos a gerações diferentes. Essa abertura ao diálogo tem me levado a pensar sobre tolerância, a questionar meu comportamento enquanto mulher, filha e mãe. Ela é muito sinistra, atua em várias frentes na vida... tá sempre disposta a ajudar o próximo.
Eu também queria que todo mundo conhecesse o rango dela, é sensacional! (risos)

MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar?
EC - Acho que estamos caminhando, nos fortalecendo, dialogando, produzindo conteúdos que nos fazem refletir enquanto mulheres negras, mas temos ainda um longo caminho de luta e resistência a trilhar. Como produtora audiovisual dividi pouquíssimos sets com outras mulheres negras, seja ocupando a mesma posição, dialogando sob o mesmo fazer ou até mesmo em outras categorias da cadeia audiovisual. Temos muitos falando sobre nossas vivências, culturas, dores e amores, mas nós não estamos nos lugares que queremos e merecemos para protagonizar nossas histórias. Não temos ainda acesso necessário às ferramentas, então somos legitimados a objetos de estudo e quase nunca a protagonistas. Mas eu vejo um movimento muito grande em prol dessa mudança, com cursos em algumas comunidades, equipamento chegando em outras, as pretas tendo espaços de fala, articulações e reflexões. Mas o mercado ainda não é representado por nós e não estamos inseridas nele como deveríamos. Claro que seguiremos na luta, pois vai ter preta realizando, construindo e formando parte do mercado audiovisual sim, sociedade!

MBP - Como você lida com a sua estética negra?
EC - De uns anos pra cá adotei os dreads e pretendo ficar bastante tempo com eles. Cuido com produtos naturais como pomadas, sabonetes, e até perfumes. São essências maravilhosas!! Tenho ousado nos turbantes... tenho feito uns bem legais! Sobre a pele não faço absolutamente nada, só quando tenho algum evento babadeiro, passo uma maquiagem bem leve e nada mais. Uso roupas que me deixam confortável e tento sempre fortalecer as irmãs que estão na luta com sua arte. Elas sempre arrasam nas roupas e acessórios.


MBP - Umas das palavras mais em voga no momento é representatividade. O que é representatividade pra você?
EC - Representatividade pra mim é olhar para um espaço cheio de pretas e pretos e querer saber o que tá acontecendo, pois sempre quero me misturar com meu povo. É pegar um transporte público e encontrar uma mina preta de turbante e nos cumprimentarmos sem nunca termos nos vistos. É chegar nos espaços e ver que tem preto fazendo tudo, ocupando outros setores além daqueles que já somos pré destinados. É caminhar pelas ruas e ver que o povo preto tá colocando a cara no sol e dando nome e sobrenome pela pista com muito trabalho, dedicação e amor em seus fazeres. Tem preta podendo sonhar e realizar, isso é muita representatividade.

Conheça os filmes produzidos pela Erika Candido: www.afroflix.com.br

MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #6 - VANESSA ANDRADE

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por Karina Vieira

Foto: acervo pessoal
       Falar da Vanessa Andrade sem uma imensidão de elogios foi bem difícil, ela é sim uma mulher especial. Coordena de forma magistral o projeto Afrobetizar (<3) que tem como propósito legitimar o corpo como território de afirmação da negritude. "O Afrobetizar foi virando uma proposta com a intenção de proporcionar experiências onde se perceber negro passasse a ser associado à alegria, algo muito bom! Era preciso alfabetizar a criançada na negritude para que elas pudessem falar sobre suas vidas enquanto crianças negras com menos agressividade e mais carinho". Palavras da própria Vanessa.

MBP - Quem é você? 
Vanessa Andrade - Sou Vanessa Menezes de Andrade, filha de D. Edna e do Sr. Jadir. Sou negra, moro desde que nasci na favela do Cantagalo, tenho 30 anos de vida e 1 ano de confirmada ekedi de Oxossi, sou filha Oxum e de Iyá Meninazinha de Oxum. Sou doutoranda de psicologia social. Há dois anos, comecei a estudar a psicologia que mais me interessa: Psicologia Afrocêntrica. Acredito e pratico uma educação com as crianças negras pautada na afirmação da negritude e na construção de uma relação de união e solidariedade que segue o que o grande professor Abdias do Nascimento chamou de Quilombismo. Por isso, desde 2012, desenvolvo junto com amigos-malungos um projeto sem fins lucrativos na favela onde vivo, chamado Afrobetizar.
Neste último ano tenho entendido mais o caminho que trilhei e as responsabilidades que assumo enquanto preta, compreendido a importância de nutrirmos os vínculos de amor entre nós. O amor me rege! Como disse, sou de Oxum.

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude?
VA - A politização da afirmação da minha negritude teve forte influência das letras do Racionais Mc’s e da prática da capoeira angola. Neste processo destaco a força e presença do meu mestre de capoeira, Claudio Nascimento. O meu “tornar-se negra” começou na escola... Sou negra pouco pigmentada e na favela onde vivo a maioria não me vê como negra. Aqui o discurso da pigmentocracia opera! Só que estudei a vida toda em colégios particulares e lá, entre os brancos, não havia dúvida de que eu não era branca. Fui aprendendo que meu cabelo dito “bom” na favela era “ruim” na escola e que minha pele “clara” na favela era “escura” no colégio e por aí vai… Mais tarde quando prestei vestibular já me assumia negra, concorri por cotas na UERJ e passei com uma das maiores notas do vestibular daquele ano de psicologia. Fazia questão de afirmar isso em sala porque éramos humilhados por professores e alunos que diziam que o nível da universidade ia cair e coisas do tipo. Lá na UERJ conheci o pessoal do DENEGRIR. De cara gostei do Hugo, mas achava as ideias deles radicais. Devagar fui frequentando alguns encontros e reconhecendo a importância daquele grupo e daquele espaço. Este encontro foi importante para começar a “pensar” o que era ser preto academicamente/politicamente. Eles me apresentaram a obra de autores pretos e isso foi fundamental porque a formação que recebi na universidade é totalmente eurocêntrica. É preciso falar do desconforto que é ser vista pelos pretos como alguém que tem “privilégio” por ser menos pigmentada. Se por um lado tive a possibilidade de acessar certos espaços com mais facilidade, por outro vivi uma ilusão de que era branca e quando a verdade veio à tona, foi sofrido, tardio e solitário. Portanto, não nego que haja facilidades, mas acho muito fragmentador e perigoso este discurso de “privilégio”. É comum no Afrobetizar chegarem crianças pouco pigmentadas dizendo que não são negras e quando me afirmo negra, elas passam a pensar e considerar a própria negritude. Por outro lado, já ouvi crianças muito pigmentadas dizerem: “Se você é preta e eu também, quero ser preta como você!”. Ali eu vi o limite do meu corpo preto. Não podia mais ser eu fortalecendo a negritude daquela criança. Nessas horas precisamos mais do que nunca ser aldeia e contar com a participação de outras pretas e pretos com diferentes tons e traços para afirmar o fundamental: somos pretos vivendo em um sistema racista. Precisamos nos unir.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão e como foi o caminho da sua graduação?  
VA - Escolhi Psicologia porque não passei em Medicina. Nunca tinha ido ao psicólogo. Não conhecia nada de Psicologia e honestamente estou no doutorado e nunca li muitos autores mais celebrados. Fui sorrateiramente me esquivando, me permitindo ter contato com uma forma de pensar psicologia que me fez acreditar que seria importante persistir apesar de todos as frustrações. Fui constatando o triste e lamentável: o fato dos hospitais psiquiátricos historicamente estarem lotados de população preta, assim como as prisões, os moradores em situação de rua, os usuários de drogas sem assistência, as favelas, os jovens mortos pela polícia, os policiais mortos e por aí vai… A Psicologia não falava nada sobre isso. Quis continuar para poder pesquisar e falar sobre nós e assim aprender outro modo de ser psicóloga.
foto  stephane Munnier

MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram? 
VA - Honestamente, acho difícil nomear porque são muitas e muitos... As mulheres e homens da minha família, principalmente, minha mãe e meu pai. As crianças no Afrobetizar; minha mãe de santo, Mãe Meninazinha de Oxum e todas as minhas irmãs de axé; Vanda Ferreira que é uma das maiores ativistas negras que conheço! Minhas amigas: Ludmilla, Dani, Fafá, Kati, Nina e Samara. E tem as autoras… Iyanla Vanzant e Conceição Evaristo; o meu mestre Claudio Chaminé e o professor Abdias do Nascimento.

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
VA - Vanda Ferreira. Nós precisamos escrever livro e filme sobre a militância dela. Dia desses ela me contou como colaborou para criação do movimento negro dentro do antigo Complexo Penitenciário Frei Caneca. Ela me mostrou algumas das cartas que recebeu de presos agradecendo a forma como ela acreditava neles e falava para eles do poder preto. Coisa linda!

MBP - Na sua trajetória profissional, o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar? 
VA - A Psicologia no Brasil é um saber a serviço da elite branca que tem como pagar atendimento clínico e que se vê reconhecida no referencial germano-francês que fundamenta o pensamento psicológico brasileiro. Embora haja profissionais comprometidos com uma prática mais ética, precisamos mudar a nossa formação. Inserir as discussões raciais nas disciplinas e realizar pesquisas sobre os impactos do racismo e dos privilégios da branquitude na subjetividade da população, aí falo de negros e brancos, pois é preciso estudar o branco. É preciso mais pretos nas pós-graduações (é lá que o racismo seleciona e impede o acesso do nosso povo ), que façam pesquisas com temáticas relevantes para o nosso povo, usando como referenciais teorias e autores negros; falta uma problematização do tipo de atendimento realizado nos centros de atenção psicossocial e que muitas vezes acaba sendo o único espaço de acolhida da população preta; falta aos conselhos da profissão ações mais direcionadas de promoção da saúde mental da população negra. Reconheço um avanço que é a criação de grupos de relações raciais em alguns conselhos, como o do Rio de Janeiro, que promovem seminários onde a questão racial é abordada. Para os psicólogos pretos falta se aproximarem de outros referenciais teóricos. Eu venho estudando psicologia afrocentrada e psicologia negra em um grupo de estudos com duas estagiárias de psicologia do Afrobetizar e estes conhecimentos têm sido fundamentais para embasar outro modo de ser psicóloga e direcionar e qualificar nosso atendimento.

MBP - Como você lida com a sua estética negra? 
VA - Uso óleos naturais diversos no corpo e cabelo. Uso produtos que não tenham química nociva (minha visão de nociva é tudo que modifica a estrutura do meu cabelo). Parei de usar esmalte porque comecei a achar feio. Não sou favorável aos discursos que alguns grupos e militantes defendem de antidepilação, antiquímica, antiaplique, antialisamento etc. Já temos um mundo contra nós, defendo que a/o preta/o saiba sua/nossa história e faça a partir daí sua escolha sabendo que o racismo impõe a beleza nórdica e que algumas práticas que pensamos ser manifestação da nossa vontade são na verdade uma submissão ao padrão branco. Maaaaaas se a preta ou o preto sabendo de todo este processo e ainda assim quiser alisar ou usar aplique é direito dela/e! Menos julgamento e performance, pois estou vendo um monte de pretas/os com black laranja, azul, rosa e quando falam não ouço um discurso coerente. Não estou preocupada com esta aparência, quero e luto por mais discurso e práticas efetivas de fortalecimento nosso. Já no meu caso, que lido com crianças e adolescentes em processo de afirmação da sua negritude, é extremamente importante assumir os cabelos naturais, usar roupas, símbolos, acessórios que tenham significado para o coletivo. Ensinar a consumir o que é nosso como gesto de carinho e fortalecimento financeiro comunitário. E neste processo de aprendizagem de consumo nosso, é fundamental a parceria com os pretos que fazem produtos e acessórios, por isso tenho imensa gratidão aos amigos como Hugo Chad e a Maria Chantal que chegam junto com o Afrobetizar e cedem produtos para as atividades com os nossos pequenos.



MBP - O que é representatividade pra você?
VA - Representatividade é poder reconhecer alguém e ser reconhecida/o pelo feito. Nós estamos lutando por mais ações coletivas de fortalecimento do povo preto e neste processo, que envolve várias frentes, contamos com a ação de pretas e pretos que visam e agem de fato em prol da coletividade. No entanto, devemos pensar o risco da representatividade que é a responsabilidade. Representar a “atividade” de um povo é uma tarefa árdua e tende a ser injusta. Digo isso porque aquele que representa passa a ser visto e cobrado como herói e herói não erra, assim no menor deslize são massacrados por aqueles mesmos que um dia o reverenciaram. O risco da representatividade também é a sedução da visibilidade excessiva para quem representa e, ao meu ver, o que deve estar em primeiro plano é o movimento, a realização e não a Preta ou o Preto que realiza, pois nossos feitos e conquistas são sempre coletivos. Por outro lado, há o risco da acomodação e transferência de responsabilidade para quem é representado, do tipo: “O preto tá lá fazendo por nós!”, isso gera um peso muito grande nas costas de quem está lá representando, isso ao meu ver é antiafricano. Defendo que nós todos estamos na luta e na luta ninguém vai combater no seu lugar. Todos os corpos são convocados a ação, então temos que ter muito cuidado com esse discurso de representatividade. Há um tipo de visibilidade que considero nocivo, chamo de “afroarmadilha”, que é a representatividade da imagem, isto é, estamos reivindicando uma presença negra nos ambientes brancos, que são regidos por leis brancas, e enfeitando isso chamando de “ representatividade”. Ex: atores pretos na grande mídia e candidatos pretos nos partidos políticos tradicionais. Neste momento da minha vida, quem me representa é minha iyalorixá, meu mestre de capoeira angola e as crianças e amigos do Afrobetizar. Pretos em ambientes regidos por pretos. Ali, as atitudes deles são coerentes com o que penso com o que acredito e com o que busco praticar. Ao mesmo tempo, sou acionada por eles para assumir minhas responsabilidades nas frentes que me foram delegadas.

Conheça o projeto Afrobetizar: http://institutotear.org.br/afrobetizar-a-educacao-no-brasil/.

MULHERES PRETAS QUE MOVIMENTAM #5 - LUCIANE DOM

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por Karina Vieira

Foto: acervo pessoal
      Luciane Dom impressiona quando começa a cantar. Com voz potente, ela é uma daquelas surpresas boas, que quando a gente escuta não quer mais parar. Acaba de lançar seu primeiro clipe, esse num plano sequência incrível e de rara beleza.

MBP - Quem é você? 
Luciane Dom - Sou Luciane Dom, uma mulher bastante questionadora e argumentativa. 

MBP - Como se deu a descoberta da sua negritude?
LD - Descobri minha negritude desde criança. Meus pais sempre se preocuparam em conversar comigo sobre identidade, apesar de na época não entender nada disso. Eu tive bonecas pretas, sempre usei tranças, a música que ouvíamos era música gospel americana, então cresci ouvindo aqueles corais negros e me sentia representada. Eu estudei em um colégio particular na infância e a maioria dos alunos eram brancos; meu apelido era "apagão" e "peste negra"... Logo, toda semana eu denunciava meus colegas de classe. Meus pais sempre foram muito ativos no colégio, frequentavam as reuniões de pais e professores para falar de racismo e me ensinaram a me defender com argumentos.

MBP - O que te levou a escolher a sua profissão?
LD - Eu estou me formando em História na UERJ, mas não pretendo trabalhar na área. Quero fazer o que amo fazer desde menina, que é cantar. Eu fui fazer História porque gostava muito de argumentar e criticar, sou questionadora desde criança, daí saí de Paraíba do Sul para vir estudar. Aqui no Rio de Janeiro decidi que arriscaria trabalhar só com música, já que além de cantar eu também componho. Eu sou inquieta com a questão de raça no Brasil e isso é um tema que trabalho desde a faculdade, então acabo fazendo músicas nesta temática. Quero ser reconhecida como cantora e continuar fazendo esse trabalho de valorização da identidade negra. É fundamental que sejamos vistos de forma positiva na sociedade. Mês que vem finalizo meu CD que se chama "Liberte esse Banzo", nele eu falo de empoderamento e luta diária como mulher-negra.

MBP - Como foi o caminho da sua graduação? 
LD - Foi bastante complexo... Peguei muitas greves, professores desestimulados, mas eu consegui ter uma boa base de formação porque eu fazia parte do Laboratório de Políticas Publicas da UERJ, e lá eu lia bastante coisa e tinha bons tutores.

Foto: acervo pessoal
MBP - Quem são as pretas e pretos que te inspiram? 
LD - Ahh, vários! Me inspiro no Gilberto Gil, Itamar Assunção, Johnny Alf (sou apaixonada por suas músicas), Carolina de Jesus, minha bisavó - que tive a sorte de conviver até os 15 anos - dona Altiva Cabral, Elza Soares, Solange Knowles, Erykah Badu... 

MBP - Quem é aquela mulher preta que você conhece e quer que o mundo conheça também?
LD - Mahmundi.

MBP - Na sua trajetória profissional o quanto avançamos e o que ainda temos que avançar?
LD - Ihh, falta muita estrada, mas já temos alguns avanços... Eu tenho visto várias mulheres pretas se empoderando e abrindo caminhos através da música, das artes em geral, mas ainda precisamos avançar em divulgação e propagação dos nossos trabalhos. Acho que ainda estamos muito presas à uma mídia branca que acaba silenciando nossa voz.

MBP - Como você lida com a sua estética negra?
LD - Eu cuido bastante da minha pele, uso pouca maquiagem, uso protetor solar, faço esfoliações e hidratações com frequência. Cuido bastante do cabelo também, toda semana hidrato, faço umectação. Para pele eu gosto dos produtos de limpeza da Mary Kay... Para o cabelo, tenho usado uma gelatina da Capicilin que modela os cachos. To totalmente feliz com minha aparência!

MBP -  O que é representatividade pra você?
LD - Representatividade é se ver no outro. É se sentir identificado ou representar algo para alguém. Representatividade preta é ser visto não só nos mesmos lugares sociais que nos impuseram desde a escravização, mas mostrar que podemos ter acesso ao lugar que quisermos quando quisermos! #representatividadeimporta #representatividadepretaimporta #liberteessebanzo


Conheça a música de Luciane Dom:
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