19 COISAS QUE PEQUENAS MENINAS NEGRAS AINDA NÃO OUVIRAM O SUFICIENTE

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por Élida Aquino

7 Meninas Crespas | Lulu e Lili Acessórios | Foto: Quilombo dos Meninos Crespos
     Hoje, depois de ouvir o desabafo que uma preta deixou num vídeo, as Meninas Black Power começaram outra conversa sobre solidão da mulher negra, especialmente dentro de relacionamentos amorosos. É um tema recorrente e entendo que depois de tanto tempo calando sentimentos sobre a vida, as relações, entregas ruins ou boas e também sobre como tudo nos afeta enquanto mulheres negras, é hora de falar muito, sim. Já aguentamos demais.
     Fiquei pensando: onde a gente começa a sentir isso? Quando nossos conflitos com o afeto se dão? A partir de que ponto nos tornamos tão vulneráveis e/ou tão endurecidas quando o assunto é amor/amar? Tenho visto várias de nós sofrendo em relacionamentos amorosos e já escrevi algumas reflexões como essa aqui. Às vezes somos nós, as que parecem tão seguras e conhecedoras de si e do contexto, as atingidas. Não estamos imunes. Umas admitem abusos vindo de parceirxs, outras não conseguem se abrir por medo da dor, outras não enxergam o próprio valor dentro da relação... Enfim, muitas feridas esperando por cura. Juntando o que tenho visto, as construções que tenho tido dentro da coletividade e outros fatores, cheguei no texto 19 coisas que pequenas meninas negras ainda não ouviram o suficiente com outro olhar. Foi uma indicação da Nubiha, preta que super admiro, e a lista é uma ideia da Kayla Greaves, publicada no Blavity (que arrasa em conteúdo e merece atenção, por sinal). 
        Refleti sobre a mãe que espero ser no futuro, a menina preta que fui, as coisas que ouvi, o que não ouvi e sobre os reflexos disso na mulher que me torno diariamente, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos afetivos que tive e tenho. O resultado é óbvio: o que absorvi na infância influenciou na adolescência e por aí vai. Fui vendo o quanto precisamos gerar mulheres negras que se apropriem delas mesmas. Às vezes limitamos o "empoderamento da mulher negra" ao amor ao próprio corpo, às características únicas, mas e o que vai por dentro? Precisamos nos empoderar também da segurança de sermos especiais, dos nossos valores, talentos, de merecermos respeito por sermos boas em muitas coisas e também de merecermos cuidado e paciência naquilo que não somos. Precisamos ouvir isso das nossas referências. Por isso trouxe o post pra cá e tomei a liberdade de incluir algumas coisas. Ele me tocou na simplicidade. Quero ser essa mãe que potencialize as próprias crias, quero que minhas amigas e amigos sejam pais assim, quero que possamos dizer isso às crianças que cruzam nosso caminho e que esse post gere isso em você que está lendo e ainda não o faz. Meninas negras precisam saber que são maravilhosas, que podem ser o que quiserem, e esse incentivo começa dentro de casa, antes mesmo de elas levantarem das suas camas para ganhar o mundo. Potencialize as pretinhas! Ainda não sabe o que dizer? Dicas práticas abaixo. Inspire-se!

1. Você é linda. Você é talentosa. Você é amada.
2. Você pode ser o que quiser ser. Nem o céu é limite pra você.
3. Sempre experimente coisas novas, é assim que você vai aprender quais são seus talentos.
4. Se você não vê ninguém fazendo algo que você quer fazer e acredita que pode ser extraordinário, não tenha medo de ser a primeira a experimentar!
5. Seu cabelo natural desafia a gravidade - você é mágica.
6. Porque seu cabelo desafia a gravidade as pessoas vão querer tocá-lo. E você está autorizada a dizer "não!" se não quiser que toquem.
7. Sua pele cheia de melanina é perfeita.
8. Ser "muito negra", ou "não ser suficientemente negra" não são coisas reais. Todos os nossos tons são bonitos.
9. Sua história não começou com a escravização. Você tem uma história rica e descende do continente onde a vida humana começou.
10. Às vezes você vai ser a única menina negra no lugar, mas isso não faz de você estranha. Isso te torna única!
11. Não tenha medo de contar sua história e sua verdade.
12. A única parte do corpo que você precisa usar para chegar à frente na vida é o seu cérebro (mas não sinta vergonha do corpo maravilhoso que possui!). 
13. Haverá momentos em sua vida onde você terá que lidar com decepções. Mantenha sua cabeça erguida, mesmo nos momentos mais difíceis. Mesmo assim não se envergonhe de sentir dor. Você não precisa ser forte o tempo todo.
14. Você não é responsável pelos erros que seus pais possam ter cometido. Não carregue esse fardo na vida.
15. Não há cabelo "ruim". Não há cabelo "ruim". Não há cabelo "ruim". Não há cabelo "ruim". E qualquer um que te disser que há, está mentindo.
16. Você é responsável por sua própria felicidade.
17. "Não" é uma palavra poderosa. Não tenha medo de usá-lo.
18. Os livros são seus melhores amigos – e a melhor maneira de ampliar conhecimento fora da sala de aula.
19. Aproveite sua infância! Estes são os anos em que você pode aproveitar muito mais a maravilha de ser uma menina negra e livre. 

ENCRESPANDO 2015 - I SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENCRESPANDO

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por Coletivo Meninas Black Power

      Chegamos! Foram alguns meses recebendo as perguntas de vocês sobre quando aconteceria o tão esperado Encrespando 2015 e nós sempre pedíamos pra esperarem mais um pouquinho... Desculpem tanto suspense, Meninas! Estávamos trabalhando em algo realmente especial.
        Há alguns dias contamos aqui sobre a parceria com o Departamento de Direito da PUC-RJ. Não viram?! Olhem a Thula e Carolina, representantes da PUC, e uma parte do time MBP em reunião aí:
     
      O Encrespando 2015 abre espaço pro nosso I Seminário Internacional Encrespando (sim, vocês leram internacional mesmo!), organizado pelo Departamento de Direito da PUC-Rio, Núcleo de Estudos Constitucionais e Coletivo Meninas Black Power, sob o tema "Refletindo a Década Internacional dos Afrodescendentes (ONU) - 2015-2024". Hoje damos a largada até que estejamos juntxs lá na PUC. Aqui no site vocês podem conferir a programação (e amar desde já todas as mulheres incríveis que vão marcar este evento com falas tão incríveis quanto!), o edital para submissãode trabalhos e todas as outras informações que quiserem. O I Seminário Internacional Encrespando é um evento gratuito e acontecerá nos dias 3, 4 e 5 de Novembro de 2015, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea, Rio de Janeiro, RJ – Brasil). Querem saber mais? Façam contato no email encrespandopuc2015@gmail.com e não esqueçam que todas as integrantes do Coletivo Meninas Black Power estão aí pra trocar ideia. Não esqueçam de acessar: http://www.jur.puc-rio.br/encrespando/.

Vamos juntas? Será incrível, histórico e transformador. 
Contamos com vocês!

"TENTA PRA VER!" - GABRIELO GABRIELO E O BC

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por Grupo de Trabalho Moda e Beleza

Foto: Gabrielo Gabrielo
      Hoje a gente conta com a presença especial desse muso que arrasa e faz a gente se divertir demais (assista aos vídeos aqui)! Ele acabou de fazer o corte e deixou esse depoimento tão maravilhoso quanto ele pra dividir um pouco a sensação desafiadora e ao mesmo tempo encorajadora de entrar em contato com o próprio cabelo. Você está num momento de transição, cogitando o BC ou pensando em como é o seu cabelo de fato? Então vem aqui ler o que ele tem pra contar e, como de costume por aqui, inspire-se!

"Confesso que ainda dói um pouco ver que 60 ou 70% do meu cabelo foi embora... 
Mas foi por uma boa causa. Falam tanto de cabelo ruim e cabelo bom, quando na verdade o que arrasa mais é o que veio ao mundo de um jeito e permanece da mesma forma. Eu - já que muita gente não me aceitava nem um pouco com cabelo crespo ou cheio - fazia questão de aplicar produto químico pra no mínimo baixar o volume. Há uns meses atrás decidi mudar isso! Fiz meu corte de pontas. Como as pontas estavam cacheadas, escondiam o dano que a química causou na estrutura do meu cabelo. Ali estavam elas... As sequelas deixadas no resto do “belão”. Estavam à mostra. Eu já imaginava que elas iriam aparecer, mas foi preciso fazer! Mesmo assim não tive coragem suficiente pra jogar fora o que me restava... Me contentei com trapos! Decidi depois de um tempo: "Cansei desses arames feios! Isso é um cacho? Uma onda? O que é?". Esse sim é o cabelo que precisa ser domado: o danificado. Ou você se contenta com essas formas estranhas que essas tais empresas de relaxamento "zicas" colocam no seu cabelo, ou aceita o teu natural. Tanta gente não tem noção de como o próprio natural é lindo! Deixa ele crescer, vê pelo menos a sua raiz. Agora multiplica ela por 10. Por 50... Por 100 centímetros além... Olha que lindo! Não são só as modelos de revista ou as dançarinas da Beyoncé que fica bem assim, não. Experimenta pra ver! Dói em mim agora, mas daqui há pouco eu espero ver ele a coisa mais linda desse mundo. Eu amo o meu cabelo, do jeito que ele é! Beijos!"

#FALANDODETRANSIÇÃO COM KARINA VIEIRA

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por Karina Vieira
     Voltando àquele papo sobre o quanto é empoderador ver as minas tudo assumindo seus cabelos crespos, sendo do comprimento que for: bem, passar pelo BC é difícil, doloroso e por muitas vezes pensei que não aguentaria a pressão, afinal há muita gente ao seu lado, mas também há um monte pra testar sua fé. Porém o mais difícil está por vir. O cabelo que está crescendo só encontra sustentação se estiver firmado em raízes e essas estão dentro da cabeça.
     Como li várias vezes durante a semana, assumir-se crespa começa na estética, mas precisa ser algo além. As piadinhas dos amigos mais próximos começam a perder a graça. A invisibilidade midiática fica mais gritante. O fato de você não ver pessoas como você nos lugares de poder incomoda cada dia mais. Ver corpos pretos sendo mortos e arrastados fica latente, deixa de ser apenas número e passar a ser sentido na própria pele.
     Aí começa a verdadeira revolução. A estética vira política e eu só encontrei sustentação quando me amparei no Coletivo, quando percebi que a mudança que começava em mim só fazia sentido se reverberasse nos meus. O coletivo não tem esse nome à toa. Ele só existe porque não é feito de "eu", mas sim de "nós". 
Estética é política, sim. Ou pelo menos pode ser o começo.

KIT MBP - LAIS REVERTE

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por Grupo de Trabalho Moda e Beleza

    E aí, Meninas?! Prontas pra mais uma dica diretamente da nossa equipe?! Então venham aqui. A maravilhosa de hoje é a Lais. A listinha é curta e eficiente, especial para as mais práticas ou que mudam muito de cara quando estão por aí. Aproveitem! 

2 - Grampos
3 - Pente garfo
4 - Presilha pro cabelo em forma de pente

O RACISMO ME FEZ PEDRA. E O AMOR VEIO COMO ÁGUA.

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por Jessyca Liris

Foto: Jessyca Liris
      Foi estranho, e ainda é, saber que o meu amor é recíproco, que eu sinto e sentem por mim de volta. Eu não lembrava mais como era ter uma relação afetiva assim, com tamanha intensidade e intimidade, talvez porque nunca tivesse vivido. Durante todo meu processo de autodescoberta e de empoderamento inicial, eu estive "solteira sim, sozinha também". Há total ligação com o outro texto, o "Teu corpo não é estranho". 
      Quando começo a sentir algo diferente por alguém e até então não é recíproco, não tem nada de novo sob o sol; mas quando descubro que há reciprocidade, começa todo o questionamento e insegurança. "Como alguém pode gostar de mim?" e "ele pode ter alguém muito mais bonita e inteligente, pra que vai ficar comigo?". Percebi que todos os questionamentos existiam por causa do que eu vinha vivendo enquanto mulher preta, por causa da solidão que nos é imposta, a ausência de romantismo e a dose cavalar de erotismo e só. Dentro de mim não havia a possibilidade de ser amada de volta  pensava "olha isso, Jess! Quem vai querer?". 
       Eu escrevi e reescrevi esse texto algumas vezes, porquê falar da existência de uma afetividade, onde eu sou uma das protagonista, é inédito de certa forma. Toda vez que escrevo em primeira pessoa, não é como Jessyca-indivídua, e sim como Jessyca-mulher preta, que faz parte de algo plural, que entende que o amor é negado a nós e nos causa estranhamento. É claro que nem toda mulher preta passa por isso (que bom!), mas quando eu achava que era uma coisa só minha, vinha uma irmã e chorava suas dores afetivas comigo e eram as mesmas, era o mesmo que eu sentia. Ter um par hoje não cura todas as minhas feridas, nem tira as minhas dores, e nem é a solução dos meus problemas, mas ajuda a dividir, a entender. O sistema nos isola, nos castra, nos faz pedra. Mas água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!

SOMOS O QUE SOMOS

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por Renata Morais

Foto: Lulu e Lili Acessórios
      Estávamos no aeroporto em Brasilia voltando para o Rio. Passamos rápido por uma lanchonete já na área de embarque e uma criança branca, lisa e loira, toda de rosadinha, já com o lanche na mão, olha para a Elis e grita: "Cabelo feio!". Gritou bem alto. A menina tinha uns três anos, com certeza reproduz o que ouve em casa ou na escola. Eu e o meu marido olhamos para ela bem sérios e ela abaixou a cabeça.
      A Elis não olhou e seguiu sem falar nada. Só apertou minha mão. Sentamos e eu perguntei se estava tudo bem. Ela não quis falar, só me abraçou. O pai ficou revoltado, queria que ela falasse o que estava sentindo ou que ela respondesse. Não dá. Ela só tem quatro anos... É estilosa, toda descolada e esperta, porém o racismo e preconceito fazem isso com a gente.
      Eu queria muito entrar em seu peito e retirar aquele nó que só o racismo faz. Aquele aperto misturado com vergonha. Ela não esperava aquele grito, ela não está acostumada com isso.  Veio sem falar nada, dormiu a viagem toda. Ainda não toquei no assunto aqui em casa, mas sinto que o trabalho precisa ser mais firme. Pais: seus filhos, mesmo que pequenos, já são vítimas do racismo. A resistência deve ser diária. É conversa, leitura, ver representação. Isso será para sempre. Não é vitimismo, infelizmente é nossa realidade.